Haritoff - um nobre russo na corte brasileira

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  Origem dos Haritoff  
     
 

   
   
 
Com o falecimento de Alexis Haritoff, veio a viúva Ana de Houy Haritoff fixar-se em Paris, com os filhos: Maurício, Helena, Eugênio e Vera.

Em Paris os Haritoff, para seus sucessos na alta sociedade, juntavam à fortuna e ao gosto de dissipá-la, a condição de nobres russos (1). Na Côrte de Napoleão III os súditos do Czar tiveram grande voga, muito pela influência da Duquesa de Morny - Sofia Troubetzkoi - que mostrava por seus patrícios em França uma preferência provocadora de ciúmes e censuras.

O casamento de Helena Haritoff com Leopoldo Magnan (2) consolidara a situação já conquistada pela família nas rodas imperiais. Ninguém, fora mais ligado à casa reinante, com direitos e serviços e mercês por dedicação, que o Marechal Magnan, pai do jovem Leopoldo, que chegaria a General ....

Maréchal Magnan
Foto: André-Adolphe-Eugène Disdéri.
Musée d'Orsay, Paris, France.
Léopold Magnan
Foto: André-Adolphe-Eugène Disdéri.  Filho do Marechal Magnan. Casado com Véra Haritoff.
   

... Outro Haritoff - Eugênio - levou uma vida de fausto, descuido, gozo e elegância. Quando morreu, ainda moço, aos 53 anos, um jornal de Paris, parece que "Le Temps", lembrava: "les survivants du Second Empire se souviennent encore des belles fêtes donnés en l'hótel de l'avenue des Champs Élysées para Mr. et Mme. Haritoff et de l'opulence de Mr. Gafunchel, frère de Mme. Haritoff".

Eugênio Haritoff e sua mulher, cada qual fruía na sociedade de seu tempo tal evidência, que por longos anos seriam lembrados.

A Eugênio chamou um cronista "le plus beau joueur du monde". Gordo, baixo, vivo, inquieto, o "ballon", como o apelidavam, era admirado pela alegria, pela generosidade, pelo humor sempre igual na boa e na má sorte.

Napoleão III

Um dia chega a Paris, de Bruxelas, apenas com um luís no bolso. Marcha para o clube. Joga. Joga mais. Ganha. Ganha ainda. E, no dia seguinte, podia empacotar na carteira 180 notas de mil francos. Volta ao clube e joga. Joga mais. Perde. Perde ainda, e para regressar a Bruxelas, tem que pedir a um amigo de empréstimo algumas moedas.

Mas não é o jogo sua única distração mundana. Na alta sociedade que frequenta ou convida, ajuda-a a mulher, de qualidades apuradas para a grande vida parisiense. "On làperçoit - escrevia um repórter social - souvent aux premières représentations avec sa femme, qui est la belle Mme. Haritoff, et sa souer, qui est la belle Mme. Magnan. Mme. Haritoff adore le monde où la fête et on la choie beaucoup. Cèst une intrépide de patin et de raquete et elle joue au lawn-tennis comme son marijoue su whist.

"Excellente maîtresse de maison, avec cela, et sachant par une bonne administration de ménage corriger les générosités de son mari et les malechances du tirage à cinq".

Outra Haritoff ainda - Vera - casa-se em 1864 com um brasileiro, o secretário da legação do Brasil - Luiz de Lima e SIlva, que se renderia às suas graças moscovitas. Bela e elegante, Mme. Lima, como era conhecida em França, brilharia em salões europeus e do Brasil.

   
Era nesse meio que vivia em Paris Maurício Haritoff, ele próprio um grande mundano, opulento, feliz, citado por seus carros, seus cavalos, seus amores. Arthur Mayer, no seu livro "Ce que mes yeux ont vu", lembra que, ao tempo de Napoleão III, era principal artigo do código de elegância fazer "le tour du lac", no "Bois de Boulogne" todas as tardes entre três e seis e meia. E faz desfilar entre as sombras daquelas árvores e o verde dos "gazons" e os prados e as águas, os "grands daumonts" imperiais de Eugênia e do Príncipe, o "phaeton à deux" do Imperador, e os "daumonts à quatre" como o da Princesa de Metternich "dont la livrée dùn jaune serin sàpercevait de loin", e o do Duque de Mouchy. Rodavam também alguns "mail-coachs" que não esperavam a "journée des Drags", como os do Conde Aguado, do Príncipe Troubetzkoi, de Ricardo Henessy. E Mayer recorda: "des hommes très élégants comme M.M. Edouard André, Maurice Haritoff, Paul Demidoff sortaient souvent en demi-daumont".

A vida fácil tem seus riscos.

Princess Pauline von Metternich (1836-1921).
1854. Foto: Hermann Krone (1827-1916). Fritz Kempe: Daguerreotypie in Deutschland, Heering-Verlag
Maurício com a exaltação russa amava indistintamente e... perigosamente. Encontrava-se nas peias de um romance que poderia transformar-se em tragédia, quando Lima e Silva, de partida com a esposa, para visitar a família no Brasil, convidou-o a vir conhecer um país distante, que ele adivinhava deliciosamente singular nas brumas de uma imaginada meia bárbarie.

A ausência e o tempo afastariam as circunstâncias funestas de que se estava abeirando.

E o casal Lima e Silva trouxe Maurício Haritoff ao Brasil.

 

 
 

Ref.: Texto de Salões e Damas do Segundo Reinado - Wanderley Pinho]

 
     
 

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