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Mangaratiba, terra das Begônias

Ouro negro do Comendador Breves

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Igreja de Nossa Senhora da Guia - Mangaratiba, 1752.


Mangaratiba - Terra das Begônias - Viagem de Renato de Almeida à antiga capital do café por ocasião do Segundo Centenário da Introdução do Cafeeiro no Brasil - 1927.

Quando nos aproximamos de Mangaratiba, descendo a encosta da montanha, por estrada que se encurva entre a mataria densa, tocada de sol, naquela tarde de inverno, fazendo rebrilhar toda a escala de verdes, ao meio da politonia de mil ruídos da floresta acrescidos do sussurro do rio que se encachoeira aqui e ali, a cidade sorria ao longe, perto do mar, que nos aparecia como uma mancha enorme, parada e grossa.

Mas o trajeto não é agreste. Desde São João Marcos, que vimos por magníficas estradas, amparando as barreiras com contrafortes, cortando inúmeras vezes o rio com pontes, uma das quais de perfil romano, com seu ar avermelhantado de limo verde, coberto de avencas. Tal obra soberba é a "Ponte Bela", mandada construir pelo Comendador Joaquim José de Souza Breves, e que dava acesso a outrora Fazenda da Bela Vista, de sua propriedade, e, por onde escoava sua produção enorme de café e riquezas.

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Ruínas do teatro na estrada Imperial para São João Marcos.

Encontramos de vez em quando, esqueletos de casas de fazendas, antigos solares, dentre os quais o acima citado, com colunas ainda em pé, meias paredes e porteiras desengonçadas.

Em tudo, sinais de vida extinta, no próprio mato, cheio de capoeirões, que cobrem hoje as antigas plantações de café e onde se vêem ainda, isolados e estéreis alguns pés destes arbustos do nosso ouro negro. Este contraste entre a natureza exorbitante e selvagem e aqueles restos de civilização, que passou antes de solidificar-se, dá uma curiosa impressão de inconstância e de mágoa e prop·e ao mesmo tempo ao espírito arguto um problema difícil da nossa geografia econômica. O café é nômade, e na sua marcha para o sul, desertou dali quando lhe faltou o braço cativo do seu primeiro cultivador. E veio a penúria e a ruína, e os grandes centros da vida intensa e formidável da zona cafeeira, da antiga Província do Rio de Janeiro se eclipsaram, e passaram a ter existência humilde, cheia de evocações e saudades.

Ruínas do teatro na estrada Imperial para São João Marcos.

Estas cidades mortas fluminenses onde floresceram fazendas prósperas, cujos donos foram titulares de prosapia, senhores de muitas léguas de terras e de muitas centenas de escravos, em cujas casas chatas e brancas de avarandado em derredor, todos os móveis eram de jacarandá pesado, lustres e candelabros de prata maciça, que comiam em louças finas, e onde as festas, casamentos, batizados, formaturas e aniversários, eram cheias de pompa e acompanhados de banquetes rebelaisianos que enchiam mesas; essas cidades com os seus solares esquecidos ou desaparecidos, as suas fazendas arruinadas ou afundadas, não só evocam um dos períodos mais brilhantes da vida da nossa sociedade, cujo estudo está por fazer, para lhe verificar exatamente o sentido construtor que teve na formação nacional, mas têm também um ar senhorial de nobreza decaída, um pudor do contato plebeu, mesmo que lhes possa trazer fortuna.

Mangaratiba

Mangaratiba, terra de mangará, que quer dizer begônia, foi o grande porto de embarque de café, para onde convergia, não só 1/4 da produção fluminense, mas também muitos dos cafés paulistas e mineiros, que tinham empório em São João Marcos, onde se efetuavam os negócios, antes da saída do produto.

A magnífica situação geográfica na baía de Angra dos Reis, a beleza surpreendente do conjunto forte de montanhas, florestas e o mar, tudo dotou a provação de privilégios excepcionais e múltiplos encantos, a que fez companhia a boa fortuna.

Nasceu Mangaratiba em 1618, como um aldeiamento de índios tupiniquins, transportados para ali pelo governador Martin de Sá, que fundou a povoação na praia de São Bráz. Dois anos mais tarde, porém, com as ressacas agitassem muito as águas, e os índios dessem refúgio aos soldados desertores, o dito governador, em 1620, sobe com o povoado para nordeste, no Saco de Ingaíba, arrasando as casinholas do primitivo ajuntamento. Tudo favorecia a nova aldeia, numa situação geográfica excelente, ponto convergente de toda zona de Piraí, São João Marcos, Rezende e outros centros florescentes por onde passavam tropas carregadas de café para embarcar no porto de Mangaratiba, que se constituiu assim importante entreposto da vida mercantil fluminense.

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Casa dos Armazéns no alto da serra do Piloto.

A primitiva aldeiola de índios, com as suas setenta casas de adôbe e sapê, teve tudo para ajudar-lhe o progresso: estradas que favorecendo a indústria, parecem haver sido abertas nas serras pelas mãos natureza, ribeir·es que dão fácil navegação a canoas, facilitando o transporte de gêneros alimentícios até a Enseada de Ingaíba, por onde os vem buscar as sumacas; tais são as causas que desde o fim do século passado, contribuiram para o aumento do comércio e da população brasileira desta povoação.

Em 1931 era fundada por Ato de 11 de Novembro a aldeia de Nossa Senhora da Guia de Mangaratiba, cuja instalação consta de curioso documento que manuseei com emoção nos arquivos da atual cidade, como a sua certidão de batismo. Por este tempo, já contava com mais de 450 fogos e 3.600 habitantes, e o seu território de boa fertilidade, fartamente banhado pelos rios que descem a serra, já produzia café, mandioca, cana-de-acúcar e cereais, havendo engenhos de moer e destilarias de aguardente. Prosperava também a indústria de peixe seco.

Mas a grandeza de Mangaratiba não foi só como elemento produtor, mas como porto de embarque de café. Por uma questão de maior conveniência, este porto não era propriamente na enseada da vila, mas um pouco acima, no Saco de Mangaratiba, onde se estabeleceu o centro comercial da vila. Ali se apinhavam sacas e sacas de café que as tropas conduziam pela estrada abaixo e enchiam trapiches, até serem conduzidas para as barcaças e para os dois navios "Marambaia e Januária", do muito famoso e temível Comendador Joaquim José de Souza Breves. Porto tributário de vasta zona cafeeira, exportando mais de um milhão de arrobas de café, Mangaratiba teve dias de invejável prosperidade e um redemoinho de negócios agitava as cabeças que se moviam naquele ar quente com o cheiro resinoso do café em grão.

Sob o olhar protetor e caricioso de Nossa Senhora da Guia, sob cuja invocação, em julho de 1785, o padre Salvador Francisco Nóbreza iniciou sobre os alicerces da antiga capela do tempo dos índios, as obras do novo templo que o padre Joaquim José da Silva Feijó concluiu, Mangaratiba prosperou, tornando-se um dos principais centros da vida fluminense no comércio de café, escoadouro que era da grande produção própria e alheia.

A vila, no lugar em que existe hoje, não tinha propriamente vida intensa, porque esta se deslocara para o Saco, que embora contasse com apenas 500 moradores, era um centro de grande movimento que empolgava o comércio de toda aquela zona. É preciso dizer que a exportação de café era muito volumosa, mas que também todo o abastecimento da região se fazia pelo Saco, onde os navios, que vinham buscar café traziam todas as mercadorias para o comércio local, e isso lhe dava invejável primazia mercantil e enorme prosperidade. Além das grandes fazendas dos Breves, dos Xavier da Rocha e tantos outros, onde se levava vida de opulência e luxo, havia no Saco de Ingaíba, palacetes e solares senhoriais, onde os fazendeiros ficavam na época dos negócios, hotéis de razoável conforto, casas comerciais e armazéns; em suma todos os elementos da existência movimentada e ativa daquele centro de transaç·es mercantis.

Para uma justa estimativa de todo o valor deste entreposto, basta citar o fato de ter custado até 1855 aos cofres fluminenses, a alta soma de 623 contos de réis, a estrada velha de Mangaratiba à São João do Príncipe, quando foi entregue ao Desembargador Joaquim José Pacheco, que incorporou uma companhia para reconstrui-la, tornando-a numa extensão de 4 léguas uma excelente via de comunicação, como ainda hoje a encontramos, macadamizada com obras de arte, pontes, aterros, pared·es e bueiros, tudo feito com segurança e sobriedade. Sobreleva notar que, neste período áureo a Província do Rio de Janeiro antecipava a política rodoviária dos governos modernos, empregando 42 por cento de sua receita na construção e conservação de estradas, pontes e canais. Cada légua da estrada de Mangaratiba custou 315:800 $ aproximadamente, algarismos que naquele tempo representavam soma ponderável, quer para os cofres públicos, quer para os particulares. Mas em compensação passavam pela estrada anualmente, mais de 1.500.000 arrôbas de café. É certo que a companhia explorada dessa estrada faliu, mas intervieram outros motivos, que não há lugar para se referir aqui, quando damos apenas os índices da prosperidade dessa região cafeeira.

Quando, porém o café desertou daquelas paragens, no último quartel do século passado, e a construção das estradas de ferro Pedro II e Piraiense, modificou o aspecto econômico da região, o porto de Mangaratiba ficou deserto, o povoado do Saco arruinou-se a pouco e pouco até desaparecer, ficando ainda de pé meia dúzia de paredes apenas, e a vida desceu novamente para a beira mar e hoje, não há senão lembranças da terra outrora florescente e progressiva. As ruínas evocam o esforço audaz e magnífico de todos os que porfiaram e fizeram nessa região um centro fecundo de trabalho e riqueza. Há de ficar na lembrança dos habitantes de Mangaratiba, e na sua própria história, a figura do velho Coronel Joaquim José de Souza Breves, que com sua grande tenacidade, fez de Mangaratiba um centro de riquezas, transformando a pequena vila em um importante escoadouro de riquezas da terra fluminense. Sua fazenda no pontal da Marambaia e seus grandes latifúndios, foram durante vários décadas o principal reduto econômico e pólo de riquezas da região.

Mas as leis econômicas tem determinantes fatais e exigiram que o café fugisse daquelas regiões e fosse mais para o sul, buscar na terra roxa o lugar privilegiado para a sua floração máxima, e agora continua ele a descer em busca de novas paragens, na sua inconstância nômade. O Estado do Rio de Janeiro guarda a lembrança da opulência que ele permitiu. Inúmeras cidades, fazendas e estradas e o próprio mato, nos mostram com saudades os traços e vestígios de uma riqueza que não volta.

 

 

 

 

     

© 1996/2007— Todos os direitos reservados: Aloysio Clemente M. I. de J. Breves Beiler

História do Café no Brasil Imperial - Rio de Janeiro, RJ.